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Historiadores afirmam que o navegador Orelhana, cuja
aventura vimos antes, não combateu com mulheres. Na
verdade, teria se defrontado com uma tribo de índios
encabelados, os quais, na guerra, eram auxiliados pelas
mulheres, daí Orelhana ter se confundido. Mas outros,
inclusive o Frei Gaspar de Carvajal, que participou da
expedição, dão o testemunho da existência das mulheres
guerreiras, no que são acompanhados por descrições de
diversos índios... Mas estes não falavam em amazonas, até
porque não sabiam o que significava. Os índios falavam em
Icamiabas, que significa mulheres sem maridos". |
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A lenda da cobra Honorato ou Norato é uma das mais
conhecidas sobre cobra grande (ou boiúna) na região
amazônica. Conta-se que uma índia engravidou da Boiúna e
teve duas crianças: uma menina que se chamou de Maria e um
menino chamado de Honorato. Para que ninguém soubesse da
gravidez, a mãe tentou matar os recém-nascidos jogando-os
no rio. Mas eles não morreram e nas águas foram se criando
como cobras. |
| A Mãe-d'água
é a sereia das águas amazônicas. Dotada de indescritível
beleza e canto maravilhoso, a Mãe-d'água encanta os
pescadores que passam muito tempo sozinhos a navegar.
Muitos deles não resistem ao seu delicioso canto e à sua
beleza estonteante. Esses são levados pela visagem para
morar com ela nas profundezas das águas onde desaparecem.
A maioria nunca mais volta para suas famílias. |
Muitas vezes confundida com a Mãe-d'água,
a Iara, Uiara ou Ipupiara é um dos seres
mitológicos mais populares da Amazônia. Seu poder de
sedução é tão forte sobre os homens quanto o do boto sobre
as mulheres. Por isso, às vezes é chamada de boto-fêmea.
A Iara é descrita como uma mulher muito bonita e de canto
maravilhoso que aparece banhando-se nas águas dos rios, ou
sobre as pedras nas enseadas.
Para quem viaja pelos rios da Amazônia, a Iara pode ser um
perigo, pois encanta o navegador e puxa os barcos para as
pedras. Atônito, o pobre homem só se dá conta da tragédia
quando já é tarde demais para se desviar. |
Até mesmo nas periferias de algumas
capitais da Amazônia, não é difícil ouvir histórias de
gente que vira bicho. Imaginem no interior!
Tem gente que vira cavalo, porco, cobra, cachorro e assim
vai. São pessoas que em noite de luar bonito se isolam da
sociedade para cumprir seu destino solitário.
Cumprido o fado, o bicho volta a ser gente, veste suas
roupas que ficaram escondidas em algum local ermo e volta
para casa, como se nada tivesse acontecido, mas com apenas
uma certeza no coração: na próxima noite de lua, o destino
lhe baterá à porta novamente, até o final da vida.
A constante nessas histórias é o fato de que, o
bicho-gente quando atingido de forma fatal, novamente se
transforma em humano. Por isso, dizem que a única cura
para o triste sofrimento de quem vira bicho é a morte.
À boca pequena, as pessoas que viram bicho em geral são
descritas como muito pálidas, "amarelonas" no linguajar
popular. Também são muito caladas, talvez por temerem a
revelação do fatídico segredo. |
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Quem viaja pelo interior de qualquer estado da
Amazônia já ouviu falar da lenda de um belo rapaz desconhecido, de
roupas brancas, sapatos brancos e o característico chapéu branco que
busca encobrir parte do rosto e o buraco que traz no alto da cabeça: é o
boto!
Nas festas ou à beira de trapiches, sempre haverá, segundo a crendice
popular, um boto a espreitar alguma moça ingênua e, de preferência,
virgem ou menstruada. Alguns descrevem até o andar da visagem: dizem que
é meio desajeitado e que muitas vezes locomove-se com certa dificuldade
pelo pouco hábito em terra firme. Outros já o descrevem como alguém
muito alinhado, porém calado demais para os costumes da região. Por
isso, logo se desconfia de que é algo sinistro.
No entanto, para as moças novas que porventura estejam a olhar alguma
festa de interior, nada de estranho o boto lhe parece. Muito pelo
contrário! A paixão é à primeira vista! Quando se dão conta já foram
conquistadas.
Contam os caboclos que depois que o Boto consegue o que quer, ou seja,
conquistar a moça escolhida, sai na carreira e se joga no primeiro braço
de rio ou igarapé. Nessa hora é que todos se dão conta de que não era um
rapaz qualquer, mas o boto! |
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Conta a lenda que uma bela índia
chamada Naiá apaixonou-se por Jaci (a Lua), que brilhava
no céu a iluminar as noites. Nos contos dos pajés e
caciques, Jaci de quando em quando descia à Terra para
buscar alguma virgem e transformá-la em estrela do céu
para lhe fazer companhia. Naiá, ouvindo aquilo, quis
também virar estrela para brilhar ao lado de Jaci.
Durante o dia, bravos guerreiros tentavam cortejar Naiá,
mas era tudo em vão, pois ela recusava todos os convites
de casamento. E mal podia esperar a noite chegar quando
saia para admirar Jaci, que parecia ignorar a pobre Naiá.
Esperava sua subida e descida no horizonte e já quase de
manhãzinha saia correndo em sentido oposto ao Sol para
tentar alcançar a Lua. Corria e corria até cair de
cansaço no meio da mata. Noite após noite, a tentativa
de Naiá se repetia. Até que adoeceu. De tanto ser
ignorada por Jaci, a moça começou a definhar.
Mesmo doente, não havia uma noite que não fugisse para
ir em busca da Lua. Numa dessas vezes, a índia caiu
cansada à beira de um igarapé. Quando acordou, teve um
susto e quase não acreditou: o reflexo da Lua nas águas
claras do igarapé a fizeram exultar de felicidade!
Finalmente estava ali, bem próxima de suas mãos. Naiá
não teve dúvidas: mergulhou nas águas profundas, mas
acabou se afogando.
Jaci, vendo o sacrifício da índia, resolveu
transformá-la numa estrela incomum. O destino de Naiá
não estava no céu, mas nas águas a refletir o clarão do
luar. Naiá virou a Vitória Régia, a grande flor
amazônica de águas calmas que só abre suas pétalas ao
luar. |
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Todos os índios tem pele
morena. Uns mais, outros menos, de acordo com cada
região e com a nação a qual pertencem. Apenas Mani
nasceu diferente. Era branca como o leite e tinha os
cabelos mais amarelos que as espigas de milho maduras.
Muito antes de nascer, o cacique já havia sido avisado
de sua vinda. Em sonhos, um espírito branco havia
contado que eles ganhariam um presente sagrado de Tupã.
Quando nasceu, Mani, apesar de tão diferente, não chegou
a causar espanto, mas encanto! Todos queriam vê-la e
tocá-la, pois ela era um presente vindo de Tupã.
E por ser diferente, chamava muita atenção. Todos diziam
que ela era a mais bela índia que havia nascido na
terra. Na tribo era tratada com uma jóia, uma coisa rara
que eles deveriam preservar.
Mas tanto cuidado não evitou que Mani adoecesse como
qualquer outra criança. Não teve reza nem remédio do
pajé que desse jeito. A índia branca, para a desolação
de todos, veio a morrer.
Aos prantos, a tribo escolheu um local bem bonito para
depositar o alvo corpo de Mani. E todos os dias, aqueles
que tinham saudades, iam ao túmulo. Com o tempo, veio a
Primavera. As flores e plantas novas começaram a brotar.
Um dia alguém notou que onde Mani foi enterrada nasceu
uma planta que ninguém conhecia. Ela era tão estranha
quanto Mani quando nasceu.
Todos ficaram felizes e todas as manhãs regavam o
pequeno vegetal que crescia cada vez mais.
Um dos índios cavou ao lado da planta e encontrou a raiz
que mais parecia um caroço, um nódulo, uma batata.
Partindo o pedaço da raiz viram que dentro era tão
branco quanto a pequena Mani. Era como se a criança
tivesse voltado naquele estranho vegetal de raiz
esquisita. Por isso, deram-lhe o nome de "Mani oca", ou
"carne de Mani". Depois a palavra acabou virando
Mandioca como a conhecemos atualmente. |
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Entre os Índios
Maués nasceu um menino muito bonito, de bom coração
e de inteligência fabulosa. Como era muito esperto e alegre todos
na tribo o admiravam.
Jurupari,
o espírito do mal, ficou com inveja da criança e passou
a espreitar para acabar com sua vida. A tarefa não era das mais
fáceis, já que os outros índios sempre estavam à
sua volta, principalmente os mais velhos que se sentiam na obrigação
de protegê-lo. Mas Jurupari não sossegaria até fazer
o mal ao pequeno.
Num
dia, o menino brincando acabou se afastando dos outros índios.
Encontrou uma árvore e tentou colher uma fruta. Jurupari se aproveitou
e, na forma de uma cobra, deu o bote sobre a criança, matando-o.
A
noite chegou e deram por falta da criança. Começou a procura
por toda a tribo. Até que o encontraram morto aos pés da
árvore. A notícia logo se espalhou com a tristeza geral
na tribo.
Todos
lastimavam a inusitada morte da criança mais amada de toda a tribo
dos Maués. Chorou-se por várias luas ao lado do corpo inerte.
Num
dado momento durante o funeral, um raio caiu justamente ao lado do garoto
morto. "Tupã também chora conosco", disse a mãe
da criança, "vamos plantar os olhos de meu filho para que
deles possa nascer uma planta que nos trará tanta felicidade quanto
o menino em vida nos trouxe". E assim fizeram!
Foi
assim que dos olhos do pequeno índio nasceu o guaraná, fruta
viva e forte como a felicidade que o pequeno indiozinho dava aos seus
irmãos.
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| Outro ser lendário bastante comum na
Amazônia é o Curupira, descrito como um menino de estatura
baixa, cabelos cor de fogo e pés com calcanhares para frente
que confundem os caçadores. Dizem que o Curupira gosta de
sentar na sobra das mangueiras para comer os frutos. Lá fica
entretido ao deliciar cada manga. Mas se percebe que é
observado, o Curupira logo sai correndo, e numa velocidade
tão grande que a visão humana não consegue acompanhar. "Não
adianta correr atrás de um Curupira", dizem os caboclos,
"porque não há quem o alcance". |
Uma das características mais marcantes do
Mapinguari é o odor insuportável que ele exala na mata. Os
caboclos o descrevem como um bicho semelhante a um homem com
o corpo coberto de pêlos, como um grande macaco, e com
apenas um olho bem no meio da testa. Dizem também que a boca
do Mapinguari é algo descomunal; tão grande que não termina
no queixo, como a dos homens, mas na barriga. A pele dessa
figura mitológica é descrita como parecida ao couro dos
jacarés e ele tem nas costas uma espécie de armadura que se
parece com um casco de tartaruga.
Ao contrário das outras visagens, o Mapinguari ataca mais
durante o dia do que à noite. E há também os que dizem que o
Mapinguari só aparece em dias santos.
Dentro da mata, é fácil perceber o rastro de um Mapinguari:
os arbustos ficam quebrados e o mato todo esmagado.
Ao correr no meio da mata o Mapinguari solta gritos, da
mesma forma como os caçadores fazem para se comunicarem uns
com os outros. Ele faz isso para atrair a atenção dos
caçadores e poder devorá-los com sua boca imensa. E dizem
que começa pela cabeça da vítima! |
Se é um pássaro ou uma velha ninguém sabe
explicar ao certo. O que se sabe é que quando a Matinta
assobia, o caboclo respeita e se aquieta. Imitam eles,
dizendo que "em dada noite estavam em tal lugar quando de
repente: Fiiiiiiiiiit, matinta perera!"
Em cada localidade, a Matinta é um personagem sempre
atribuído a alguma senhora de idade. Se for alguém que viva
sozinha, na mata, e que não costume conversar muito, melhor
ainda! Essa, com certeza, cairá na boca do povo como a
Matinta Perera do local.
Dizem que de noite, quando sai para cumprir seu fado, a
Matinta sobrevoa a casa daqueles que zombam dela ou que a
trataram mal durante o dia, assombrando os moradores da casa
e assustando criações de galinhas, porcos, cavalos ou
cachorros. |
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